Em ano de Copa, a Taça do mundo é nossa!!! Mas a do cinema!!

Por William Paixão

Em ano de Copa do Mundo, o Brasil naturalmente veste verde e amarelo. O país para, debate escalações, revive memórias e reafirma uma identidade construída ao longo de décadas dentro de campo. Mas 2026 começou nos oferecendo um outro tipo de comemoração coletiva, fora das quatro linhas, igualmente simbólica e poderosa: a conquista de dois Globos de Ouro. O Agente Secreto venceu como Melhor Filme de Língua Estrangeira, e Wagner Moura levou o prêmio de Melhor Ator em Filme de Drama. Um feito histórico que, mais do que orgulho, exige reflexão.



O impacto dessas conquistas é imenso. Elas colocam novamente o Brasil no centro do mapa cultural mundial, apenas um ano após termos celebrado o mesmo troféu com Fernanda Torres. Em um intervalo tão curto, duas gerações de artistas brasileiros mostram ao mundo a força da nossa dramaturgia, da nossa linguagem estética e da nossa capacidade de contar histórias universais com sotaque próprio. Isso não é coincidência. Não é sorte. É resultado de um processo.

Assim como no futebol, o talento brasileiro sempre existiu no cinema. Criatividade, sensibilidade, ousadia e capacidade narrativa nunca nos faltaram. O que por muito tempo nos faltou foi estrutura. E é justamente aí que entram as políticas públicas de fomento à cultura e, em especial, ao audiovisual.

A criação e o fortalecimento da Ancine representaram um divisor de águas para o cinema nacional. Ao organizar o setor, regular o mercado e estimular a produção, a agência passou a dar previsibilidade e escala a uma cadeia produtiva que antes sobrevivia de esforços isolados. O Fundo Setorial do Audiovisual, por sua vez, permitiu investimentos contínuos em desenvolvimento, produção, distribuição e exibição, criando um ambiente onde projetos puderam amadurecer, equipes se profissionalizar e empresas se estruturar.

Mais recentemente, a Lei Paulo Gustavo cumpriu um papel fundamental ao garantir recursos emergenciais e estruturantes para o setor cultural, duramente afetado pela pandemia, mas historicamente marcado pela ausência de investimentos contínuos. Seu objetivo foi claro: impedir o colapso da base da pirâmide cultural e, ao mesmo tempo, fortalecer a infraestrutura do audiovisual brasileiro, preservando artistas, técnicos, produtoras independentes e espaços de criação e exibição espalhados por todo o território nacional. A lei não apenas financiou produções, mas também viabilizou a criação e qualificação de equipamentos culturais, ampliando o acesso da população ao cinema e fortalecendo a cadeia produtiva regional. Na mesma direção, a Política Nacional Aldir Blanc estabeleceu uma estratégia permanente de fomento descentralizado e continuado, reconhecendo que a cultura brasileira não nasce apenas nos grandes centros, mas floresce em cada cidade, em cada território, em cada coletivo cultural, e que o papel do Estado é garantir condições para que essa diversidade se transforme em política pública duradoura.

Um exemplo concreto e recente dessa política pública transformadora é o Cine Expressa – Sala de Cinema Estrada de Ferro São Paulo–Minas. Inaugurado em 13 de dezembro de 2024, durante minha gestão como diretor do Departamento de Gestão do Espaço Expressa, na Unidade de Cultura de Jundiaí, e ao lado do prefeito Luiz Fernando Machado, o espaço foi viabilizado com investimento aproximado de 500 mil reais, provenientes integralmente da Lei Paulo Gustavo. Trata-se de um equipamento cultural que fortalece a produção, a formação de público e a exibição do cinema nacional em âmbito regional, demonstrando, na prática, como o investimento público no audiovisual gera acesso, oportunidade e desenvolvimento cultural fora do eixo tradicional.

É justamente esse investimento na base que explica o sucesso no topo. Grandes prêmios internacionais não surgem do nada. Eles são o resultado de anos de formação, experimentação, erros, acertos e continuidade. Quando o Estado investe em formação, em editais regionais, em diversidade de narrativas e em acesso aos meios de produção, ele cria as condições para que o talento brasileiro encontre caminho, público e reconhecimento.

É claro que prêmios não substituem talento. Wagner Moura, Fernanda Torres e tantos outros são artistas extraordinários por mérito próprio. Mas é preciso dizer com clareza: talento sem política pública vira exceção; talento com investimento vira política de Estado e potência cultural.

Esse raciocínio encontra um paralelo quase perfeito com o futebol brasileiro. Durante décadas, fomos o país do futebol apoiados quase exclusivamente no dom natural dos nossos jogadores. Enquanto isso, o mundo aprendeu conosco — e investiu pesado. Centros de treinamento de ponta, ciência do esporte, análise de dados, tecnologia e planejamento de longo prazo passaram a fazer parte da rotina das grandes seleções e clubes internacionais.

O resultado está diante de nós: há mais de 20 anos não conquistamos uma Copa do Mundo, e o último título mundial de clubes veio em 2012, com o Corinthians. O talento segue existindo, mas a falta de investimento sistêmico,estruturado, e gestão profissional cobram seu preço.

A lição é clara e serve para o esporte e para a cultura. Nenhuma área estratégica de um país se sustenta apenas no improviso ou na genialidade individual. Investimento, planejamento e políticas públicas consistentes fazem toda a diferença.

Enquanto ostentarmos cinco estrelas na camisa, e enquanto ninguém nos alcançar, ainda seremos o país do futebol. Mas o mundo mudou, e insistir apenas na mística do talento é um risco que já conhecemos bem. A experiência do futebol mostra que quem não investe perde protagonismo.

Se queremos que o Brasil siga relevante no cenário cultural internacional, precisamos tratar a cultura com a mesma seriedade com que se tratam outras políticas estratégicas de Estado. Isso significa investimento contínuo, políticas públicas estruturadas, descentralização de recursos e visão de longo prazo. O cinema brasileiro não venceu o Globo de Ouro por acaso; venceu porque houve decisão política, houve política pública e houve investimento.

Assim, aos poucos, podemos afirmar com convicção: além do país do futebol, o Brasil se consolida como o país de uma cultura vibrante, diversa e contemporânea, que encanta o mundo não apenas pelo talento de seus artistas, mas pela maturidade de suas políticas culturais.

 

William Paixão é atualmente Gestor Executivo de Cultura e Turismo de Várzea Paulista. Atuou como Diretor do Departamento de Gestão do Espaço EXPRESSA e Diretor do Departamento de Patrimônio Histórico da Prefeitura de Jundiaí, além de presidir a Liga Jundiaiense das Escolas de Samba. Assina projetos como Jundiaí na Marquês de Sapucaí, o Passaporte Cultural Guardiões do Patrimônio (premiado pelo IPHAN) e o Registro Imaterial da Coxinha de Queijo de Jundiaí, com foco em identidade, cultura e desenvolvimento territorial.