Do megaevento à realidade local: o que Shakira em Copacabana e o Turma do Pagode em Várzea Paulista tem em comum?

No dia 2 deste mês, o Brasil voltou seus olhos para a Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Um espetáculo grandioso reuniu cerca de 2 milhões de pessoas para assistir Shakira em um dos cenários mais emblemáticos do mundo. Mais do que um show, foi uma demonstração clara do poder econômico que grandes eventos têm sobre as cidades.



Os números ajudam a entender essa dimensão. O evento gerou aproximadamente R$ 800 milhões de retorno positivo para a economia local, registrou ocupação hoteleira média de 90% — chegando à capacidade máxima nas regiões mais próximas — e impulsionou em cerca de 20% o aumento de voos da América Latina tendo o Rio como destino. Talvez o dado mais simbólico seja justamente o menos comentado: não houve investimento público na contratação da artista. O poder público atuou como facilitador, oferecendo apoio institucional, enquanto a cidade colheu os benefícios econômicos, turísticos e de imagem.

No dia 31 deste mesmo mês, guardadas as proporções, Várzea Paulista viverá sua própria versão desse fenômeno com o show da Turma do Pagode, dentro do Varzeafest – 1ª edição. E é justamente aqui que nasce a reflexão que quero compartilhar: não se trata de comparar tamanhos de público, artistas ou estruturas, mas de compreender como eventos movimentam economias em qualquer escala.

Quando falamos de eventos, falamos de uma engrenagem econômica que começa a girar muito antes da abertura dos portões. Hotéis, bares, restaurantes, transporte por aplicativo, comércio formal e informal, profissionais de som, luz, montagem e segurança passam a integrar uma mesma cadeia produtiva ativada por uma única noite de entretenimento. Cada visitante consome, cada consumo gera renda, e essa renda se transforma em arrecadação e desenvolvimento.

O ponto mais interessante é que o modelo aplicado no Rio também se reflete em Várzea Paulista. O Varzeafest será um evento privado, com ingresso solidário, recebendo da prefeitura apoio institucional para que aconteça com segurança, organização e estrutura. Em outras palavras, o município não está comprando o evento, mas criando condições para que ele aconteça e gere benefícios diretos e indiretos para a cidade.

Em cidades médias, o impacto proporcional de grandes eventos pode ser ainda mais perceptível. Diferente das metrópoles, que já possuem fluxo constante de visitantes, municípios em consolidação turística sentem de forma imediata o aumento do movimento no comércio, a geração de renda para pequenos empreendedores, o crescimento do fluxo em bares e restaurantes e a chegada de visitantes de cidades vizinhas. O dinheiro começa a circular onde normalmente não circularia, fortalecendo a economia local e criando novas oportunidades.

Quando uma cidade passa a enxergar eventos como estratégia de desenvolvimento, ela muda completamente sua lógica de investimento. Eventos deixam de ser vistos como custo e passam a ser compreendidos como instrumentos de geração de emprego temporário, estímulo ao turismo regional, fortalecimento da identidade cultural e aumento da arrecadação indireta. É um ciclo virtuoso em que experiências geram movimento, movimento gera consumo, consumo gera arrecadação e a arrecadação amplia a capacidade de investimento do município.

Copacabana mostrou o impacto em escala global. Várzea Paulista mostrará o impacto em escala regional. A diferença está no tamanho; a semelhança está no resultado. Ao olhar para esses dois momentos no mesmo mês, vejo cidades que compreenderam que experiências também constroem economia e que investir em eventos é, sobretudo, investir no futuro.

William Paixão é Gestor Executivo de Cultura e Turismo de Várzea Paulista e Vice Interlocutor da Região Turística Negócios & Cultura que compreende 10 cidades do estado de São Paulo.

Já atuou na Unidade de Cultura de Jundiaí e assina projetos como “Jundiaí na Marquês de Sapucaí”, Passaporte Cultural Guardiões do Patrimônio (premiado pelo IPHAN) e o Registro Imaterial da Coxinha de Queijo de Jundiaí, com foco em identidade, cultura e desenvolvimento territorial