A inflação desacelerou. Então por que seu bolso ainda não sentiu?

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O IBGE divulgou nesta semana um número que, à primeira vista, parece uma ótima notícia: o IPCA avançou apenas 0,07% em julho, abaixo dos 0,16% registrados em junho.

Nos últimos 12 meses, a inflação também desacelerou, passando de 4,64% para 4,44%.

Agora tente contar essa notícia para alguém logo depois que ele sair do supermercado. Provavelmente você ouvirá:

“Inflação caiu onde?”

A reação parece contraditória, mas não é.

Inflação menor significa que, na média, os preços estão aumentando mais devagar. Não significa que voltaram ao nível de alguns anos atrás, mas existe uma segunda explicação e ela é comportamental.

Seu bolso não compara índices. Ele compara memórias.

Ninguém entra no supermercado pensando que o IPCA acumulado em 12 meses está em 4,44%...

Você olha para um produto de R$ 18 e lembra de quando pagava R$ 12. 

Olha para uma refeição de R$ 50 e lembra de quando ela custava R$ 35.

Olha para uma conta mensal e compara com aquilo que, na sua cabeça, ainda representa um preço “normal”.

Esses valores antigos funcionam como base. Mesmo quando os preços param de subir rapidamente ou determinados itens ficam mais baratos, nossa referência demora muito mais para mudar.

É por isso que a inflação pode desacelerar antes que a sensação de alívio chegue ao bolso. E existe outro elemento importante nessa história!

Não existe uma única inflação sentida igualmente por todas as famílias.

Em julho, por exemplo, enquanto o grupo Alimentação e bebidas recuou 0,67%, Habitação avançou 0,99%.

Uma família que compromete grande parte da renda com determinados grupos de despesas pode experimentar o custo de vida de maneira muito diferente de outra.

Isso não significa que o índice oficial esteja errado e também não significa que a percepção do consumidor seja necessariamente equivocada.

Eles simplesmente estão olhando para coisas diferentes.

O IPCA acompanha uma cesta representativa de consumo da população.

A sua vida tem uma cesta própria.

É justamente aí que a discussão deixa de ser apenas sobre economia e passa a ser também sobre planejamento financeiro.

Ao longo dos anos, não são somente os preços que mudam. Nós também mudamos!

Assinamos novos serviços, frequentamos outros restaurantes, incorporamos conveniências, melhoramos viagens, carros ou moradia. 

Criamos despesas que alguns anos atrás simplesmente não existiam.

Nada disso elimina o efeito real da inflação, mas existe uma diferença importante entre o preço da vida aumentar e o padrão da vida aumentar. E os dois movimentos podem acontecer ao mesmo tempo.

Uma coisa é descobrir que o supermercado ficou mais caro. Outra é perceber que o seu carrinho também mudou.

Por isso, acompanhar apenas o IPCA (inflação) talvez não seja suficiente para entender o que está acontecendo dentro da sua casa.

Existe um exercício muito mais revelador:

Quanto custava manter sua vida há um ano? Quanto custa hoje?

Quais despesas realmente aumentaram de preço? Quais passaram a existir?

E quais cresceram porque o seu padrão de consumo também mudou?

Responder a essas perguntas permite separar fenômenos que, quando aparecem juntos na fatura, parecem ser uma coisa só.

A desaceleração da inflação é uma boa notícia. Mas ela não apaga os aumentos acumulados no passado e tampouco significa que todas as famílias sentirão alívio ao mesmo tempo.

O IPCA ajuda a entender o Brasil. O seu custo de vida ajuda a entender o seu bolso.

E saber separar o que ficou mais caro daquilo que você passou a consumir talvez seja uma das formas mais honestas de descobrir para onde o seu dinheiro realmente está indo.

 

Kauê Carvalho

Consultor Financeiro | Palestrante | Coautor Best-Seller

@kauecarvalhoconsultor