82% dos brasileiros relacionam problemas financeiros ao adoecimento mental. E você ainda acha que dinheiro é só sobre dinheiro?

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Sono, humor, relações familiares e desempenho profissional aparecem entre as áreas afetadas. A saúde financeira talvez ocupe um espaço muito maior na qualidade de vida do que aprendemos a perceber.

Por Kauê Carvalho — Consultor Financeiro

Você fecha o aplicativo do banco, a dívida continua existindo.

Guarda o cartão, a próxima fatura continua chegando.

Desliga a tela do celular, mas existe algo que nem sempre consegue desligar junto: a preocupação.

Talvez esse seja um dos aspectos mais negligenciados quando falamos sobre dinheiro.

Durante muito tempo, aprendemos a dividir a saúde em pequenas gavetas. Cuidamos do corpo de um lado, da mente de outro e, quando sobra tempo, olhamos para as finanças como se elas fossem apenas uma questão de números.

Só existe um problema nessa divisão: somos a mesma pessoa em todas essas dimensões.

O boleto fica no celular. A preocupação vai com você para a cama.

E os números ajudam a dimensionar essa relação.

Segundo levantamento da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (ABEFIN), 81,9% dos entrevistados afirmaram que dificuldades financeiras tiveram algum grau de participação no desenvolvimento ou agravamento de seus quadros de saúde mental.

E talvez seja ainda mais revelador observar onde essa pressão aparece.

Entre os entrevistados, 62% relataram impactos no humor, 60% nas relações familiares, 56% na qualidade do sono e 43% no desempenho profissional.

Perceba o caminho: o problema.

Começa no dinheiro, mas não fica preso à conta bancária.

Ele aparece quando você coloca a cabeça no travesseiro e não consegue desligar.

Na impaciência em casa, na dificuldade de concentração no trabalho, na falta de energia para cuidar de si mesmo.

É nesse momento que saúde financeira deixa de ser apenas uma discussão sobre números e passa a ser também uma discussão sobre qualidade de vida.

Saúde financeira não é sinônimo de riqueza

Existe uma ideia que precisamos abandonar: a de que saúde financeira pertence apenas a quem possui muito dinheiro. 

Não pertence!

Ter saúde financeira não significa ser rico, nunca ter uma dívida ou deixar de aproveitar o presente para acumular patrimônio.

Significa construir uma relação com o dinheiro que produza mais clareza, previsibilidade e autonomia.

É saber o que cabe na sua vida. É possuir alguma proteção para que um imprevisto não se transforme imediatamente em uma emergência financeira. É conseguir olhar para a própria realidade sem precisar fugir dela.

Isso também explica por que simplesmente ganhar mais não resolve necessariamente o problema.

Existem pessoas com rendas elevadas permanentemente preocupadas com dinheiro. A renda importa, evidentemente, mas o comportamento também.

Aumentar o salário sem mudar a maneira de administrar o dinheiro pode simplesmente aumentar o tamanho da preocupação.

E se educação financeira também for prevenção?

Nós já entendemos a lógica da prevenção em outras dimensões da vida.

Fazemos atividade física, cuidamos da alimentação e buscamos ferramentas para preservar nossa saúde emocional.

Por que, então, esperar uma emergência para começar a cuidar do dinheiro?

Educação financeira não substitui acompanhamento médico ou psicológico e não deve ser apresentada como tratamento. Mas organização financeira pode exercer outra função preventiva importante: reduzir desorganização, aumentar previsibilidade e evitar que decisões financeiras se transformem em fontes recorrentes de preocupação.

É por isso que uma reserva de emergência nunca é apenas dinheiro investido.

Ela também representa a possibilidade de enfrentar um imprevisto sem ver toda a estrutura financeira da sua família desmoronar junto.

Um orçamento não é apenas uma planilha, é clareza sobre até onde você pode ir.

Planejamento não significa deixar de viver o presente; significa impedir que decisões de ontem controlem excessivamente o amanhã.

Patrimônio também pode ser paz acumulada.

E talvez seja exatamente aí onde as três dimensões se encontram: saúde física, saúde mental e saúde financeira. Porque saúde integral não é estar bem em uma área enquanto as outras cobram a conta.

É por isso que estou correndo junto

Neste ano, decidi patrocinar a 9ª Corrida do Coração.

À primeira vista, alguém poderia perguntar: O que um consultor financeiro está fazendo patrocinando uma corrida de rua?

A resposta está justamente em tudo que escrevi até aqui.

Eu acredito em saúde integral. Cuidar do corpo importa, cuidar da mente importa e cuidar da maneira como lidamos com o dinheiro também importa.

Não somos três pessoas diferentes.

Somos a mesma pessoa tentando trabalhar, dormir, cuidar da família, construir projetos, pagar contas, realizar sonhos e encontrar equilíbrio no meio de tudo isso.

Por isso, apoiar uma iniciativa ligada à saúde física representa justamente tudo o que eu acredito e aplico no meu trabalho.

Meu trabalho como consultor financeiro não deveria servir apenas para mostrar quanto alguém precisa investir ou onde está gastando demais.

Ele precisa ajudar pessoas a construir a sua saúde financeira com clareza, segurança e autonomia para tomar decisões melhores. Porque dinheiro deve ser uma ferramenta para construir a vida. E não uma preocupação silenciosa capaz de ocupar todas as outras áreas dela.

Talvez esteja faltando um check-up

Provavelmente você sabe quando fez seu último exame de sangue. Talvez acompanhe quantas vezes treinou nesta semana e talvez já tenha aprendido a reconhecer quando sua mente está pedindo descanso….

Mas quando foi a última vez que você avaliou, de verdade, a saúde da sua vida financeira?

Não espere necessariamente uma dívida impagável, não espere o cartão estourar, não espere uma emergência.

E não espere perceber que a preocupação com dinheiro já começou a ocupar espaços da sua vida que nunca deveriam pertencer a ela.

Talvez sua saúde física esteja bem, talvez sua saúde emocional também esteja. Ótimo.

Cuidar das finanças antes que exista uma emergência é justamente uma forma de preservar a qualidade de vida que você já conquistou.

Por isso, talvez esteja faltando um check-up que não aparece em nenhum exame:

Quanto espaço o dinheiro está ocupando na sua vida?

Porque saúde financeira não é apenas sobre quanto dinheiro você consegue acumular.

É também sobre abrir espaço para que o dinheiro proporcione uma vida plena.

Kauê Carvalho

Consultor Financeiro | Palestrante | Coautor Best-Seller

@kauecarvalhoconsultor