Há uma contradição que sempre me incomodou quando falamos de políticas públicas: Cultura e Turismo ainda precisam explicar por que merecem investimento.
Ninguém precisa convencer uma cidade da importância da saúde, da educação, da segurança ou da infraestrutura. E nem deveria. Mas basta falar em investimento cultural ou turístico para surgir a velha pergunta: “Mas isso é prioridade?”
Talvez a raiz do problema esteja na maneira como aprendemos a enxergar essas áreas.
Durante muito tempo, reduzimos Cultura a festa, show e entretenimento. E Turismo a viagem e lazer. Esquecemos que Cultura também é identidade, memória, formação, economia e emprego. E que Turismo é comércio, serviços, gastronomia, empreendedorismo, investimento e desenvolvimento econômico.
Essa visão limitada produziu consequências.
No Brasil, ainda convivemos com uma histórica dificuldade de garantir continuidade às políticas culturais. Estruturas são criadas, modificadas ou enfraquecidas conforme mudam governos e prioridades. Movimentos culturais se articulam, depois se desarticulam. Programas começam, terminam e muitas vezes precisam ser reconstruídos anos depois.
Precisamos romper esse ciclo.
Cultura e Turismo não podem depender exclusivamente da vontade de quem está governando naquele momento. Precisam de planejamento, conselhos atuantes, fundos, legislação, programas permanentes, financiamento e participação da sociedade.
Precisamos transformar cada vez mais políticas de governo em políticas de Estado.
E existe outro problema que precisamos enfrentar: Cultura e Turismo não podem continuar servindo apenas como instrumentos de divisão ideológica.
Há boas ideias para essas áreas em diferentes correntes políticas. Podemos — e devemos — discutir o tamanho da participação do Estado, modelos de financiamento, parcerias privadas, incentivos, economia criativa, descentralização e prioridades. Divergir faz parte da democracia.
O que não podemos naturalizar é a ausência de propostas.
E talvez aí esteja uma responsabilidade que também é nossa.
Em períodos eleitorais discutimos segurança, saúde, educação, emprego, impostos, infraestrutura. Mas quantas vezes perguntamos a um candidato o que ele pretende fazer pela Cultura e pelo Turismo?
Ele conhece os movimentos culturais da região?
Conhece suas vocações turísticas?
Sabe quais projetos poderiam ser articulados com o Estado ou com a União?
Conhece os artistas, produtores, artesãos, empreendedores, guias e trabalhadores que movimentam esses setores?
Conhecimento regional importa. Política pública não se constrói apenas em gabinetes. Quem conhece o território consegue identificar vocações, conectar pessoas, articular projetos e buscar oportunidades que muitas vezes passam despercebidas.
Por isso, antes de votar, vale conhecer também o que cada candidatura efetivamente apresenta para essas áreas: propostas, trajetória, conhecimento do território e capacidade de articulação.
Não se trata de dizer ao eleitor em quem votar. Trata-se de fazer com que Cultura e Turismo também façam parte das perguntas que fazemos a quem pede o nosso voto.
Porque existe uma regra simples na política: aquilo que a sociedade cobra ganha espaço na agenda pública.
Se nunca perguntamos sobre Cultura e Turismo, não deveria nos surpreender quando eles aparecem no fim da lista de prioridades.
Talvez a mudança comece justamente aí.
Na próxima vez que alguém pedir seu voto, faça duas perguntas:
Qual é a sua proposta para a Cultura?
E qual é a sua proposta para o Turismo?
Quando essas perguntas deixarem de ser exceção, talvez Cultura e Turismo finalmente deixem de precisar provar que são importantes.
William Paixão é Gestor Executivo de Cultura e Turismo de Várzea Paulista e Vice Interlocutor da Região Turística Negócios & Cultura que compreende 10 cidades do estado de São Pauloalém de Coordenar atualmente o projeto “Várzea Paulista – Capital Nacional do Panettone” e Desafio “Maior Panettone do Mundo Brasil!”
Já atuou na Unidade de Cultura de Jundiaí e assina projetos como “Jundiaí na Marquês de Sapucaí”, Passaporte Cultural Guardiões do Patrimônio (premiado pelo IPHAN) e o Registro Imaterial da Coxinha de Queijo de Jundiaí, com foco em identidade, cultura e desenvolvimento territorial
