Desemprego em 5,3%, ocupação recorde e renda maior revelam uma contradição: receber mais dinheiro não significa necessariamente ter mais dinheiro disponível.

nlRjOrJ.md.png Por Kauê Carvalho — Consultor Financeiro

Os números parecem contar uma ótima história.

O Brasil chegou a 103,5 milhões de pessoas ocupadas, recorde da série histórica iniciada em 2012. A taxa de desemprego ficou em 5,3% no trimestre encerrado em agosto, também no menor patamar para esse período da série.

A renda também avançou. O rendimento médio real chegou a R$ 3.777, crescimento de 3,7% em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto a massa de rendimentos alcançou R$ 385,6 bilhões.

Mais gente trabalhando. Renda maior. Então existe uma pergunta desconfortável:

por que tanta gente que trabalha e não considera sua renda ruim continua com a sensação de que o dinheiro nunca é suficiente?

Talvez porque exista uma diferença enorme entre ter renda e ter margem financeira.

Seu salário aumentou. Mas quanto dele ainda é seu quando cai na conta?

Imagine duas pessoas.

A primeira recebe R$ 5 mil e possui R$ 3.500 comprometidos antes mesmo de o mês começar.

A segunda recebe R$ 15 mil e já entra no mês com R$ 14 mil destinados a financiamento, cartão, escola, assinaturas, parcelas e outras obrigações.

Quem ganha mais? A segunda.

Quem necessariamente possui mais liberdade financeira? Não sabemos.

Essa distinção é fundamental porque aprendemos a medir nossa situação financeira principalmente pela renda.

“Quanto você ganha?”

É uma das primeiras perguntas utilizadas para tentar compreender a condição financeira de alguém, mas existe outra muito mais reveladora:

quanto do que você ganha ainda está disponível para decidir?

Essa é a margem financeira. E não estou falando apenas do dinheiro que sobra no fim do mês. Estou falando da parcela da sua renda que ainda não recebeu uma obrigação antes mesmo de chegar.

Quanto maior a parcela comprometida antecipadamente, menor o espaço para mudar de ideia, enfrentar um imprevisto ou aproveitar uma oportunidade.

Margem financeira é liberdade ainda não comprometida.

A renda cresceu. A vida cresceu junto. A margem ficou no mesmo lugar.

É assim que alguém pode receber aumentos sucessivos e continuar sentindo exatamente o mesmo aperto.

O salário sobe. O carro melhora. O restaurante muda. A viagem fica mais cara. Novas assinaturas aparecem. O limite do cartão aumenta. E uma parcela que antes parecia impossível passa a “caber”.

Pouco a pouco, aquilo que deveria ampliar a liberdade passa apenas a financiar uma versão mais cara da mesma dependência, mas é importante fazer uma distinção. 

O problema não é melhorar de vida!

Ganhar mais e usufruir desse crescimento não é um erro. Dinheiro também existe para proporcionar conforto, experiências e qualidade de vida.

O problema começa quando todo aumento de renda recebe imediatamente um aumento de obrigação.

Você passa a ganhar R$ 2 mil a mais e assume R$ 1.800 em novos compromissos mensais. No papel, sua renda aumentou, mas sua liberdade financeira, quase não.

É nesse ponto que aparece uma das armadilhas mais silenciosas das finanças pessoais:

confundimos uma parcela que cabe com uma compra que cabe na nossa vida.

O banco pode aprovar. O cartão pode permitir. A parcela pode caber.

Nada disso responde se aquela decisão cabe nos seus próximos anos.

Porque cada compromisso assumido hoje disputa espaço com decisões que você ainda nem sabe que precisará tomar amanhã.

Trocar de emprego. Abrir um negócio. Ter um filho. Viajar. Diminuir o ritmo de trabalho. Enfrentar uma emergência ou simplesmente poder dizer “não” porque sua vida financeira permite escolher.

Uma boa renda compra conforto. Margem financeira preserva opções.

O que aconteceu com o seu último aumento?

Essa talvez seja uma pergunta mais importante do que parece.

O que aconteceu com o último aumento de renda que você recebeu?

Virou patrimônio? Reserva? Investimento? Redução de dívida? Mais liberdade? Ou simplesmente desapareceu dentro de um padrão de vida um pouco mais caro?

Essa resposta talvez revele mais sobre sua evolução financeira do que o tamanho do seu salário, porque patrimônio é, em alguma medida, a parte da renda de ontem que você conseguiu impedir que o estilo de vida consumisse.

E é essa parcela que começa a reduzir sua dependência da renda de amanhã. Por isso, uma pessoa pode ganhar cada vez mais e ainda depender integralmente do próximo salário para sustentar tudo aquilo que construiu.

Ela aumentou a renda. Não necessariamente aumentou a autonomia.

Talvez a pergunta esteja errada

Os dados recentes do mercado de trabalho brasileiro são positivos. Mais pessoas trabalhando e aumento da renda real importam, mas nenhuma estatística nacional consegue responder uma pergunta individual:

o que você está fazendo com a renda que chega à sua casa?

Talvez, durante muito tempo, tenhamos perguntado:

“Quanto eu preciso ganhar para viver melhor?”

Quando uma pergunta mais importante poderia ser:

“Quanto da minha renda eu preciso preservar para viver com mais liberdade?”

Porque melhorar de vida não deveria significar deixar de aproveitar o presente, mas também não deveria significar comprometer automaticamente todo aumento de renda antes que ele tenha a oportunidade de construir alguma coisa.

Na próxima vez que seu salário cair na conta, antes de olhar apenas para o valor que entrou, experimente fazer outra conta:

quanto desse dinheiro ainda é realmente seu antes mesmo de o mês começar?

Talvez seja essa a conta que esteja faltando, porque melhorar de vida não deveria significar apenas conseguir pagar por uma vida mais cara.

Deveria significar precisar comprometer cada vez menos do seu futuro para sustentar o presente.

Kauê Carvalho

Consultor Financeiro | Palestrante | Coautor Best-Seller

@kauecarvalhoconsultor