Por que fazer hoje se eu posso deixar para amanhã? - Por Gino Cammarota

 Por que fazer hoje se eu posso deixar para amanhã? A pergunta, muitas vezes repetida de forma quase automática, revela um comportamento comum que costuma ser associado à preguiça ou à falta de disciplina. No entanto, pela ótica da psicanálise, a procrastinação pode ser entendida como um sintoma ligado a conflitos emocionais mais profundos, construídos ao longo da história de cada sujeito.



Segundo o psicanalista clínico e professor de psicanálise Gino Cammarota, uma das causas mais frequentes da procrastinação é o sentimento de culpa inconsciente, presente desde a infância. Ao longo do desenvolvimento, muitas pessoas aprendem a associar falhas e limites pessoais à ideia de punição. Ao adiar tarefas e deixá-las para o último momento, o sujeito se coloca em risco: pode errar, não concluir ou entregar algo mal feito. Inconscientemente, essa possibilidade de fracasso funciona como uma forma de punição, que alivia a culpa interna, ainda que gere prejuízos objetivos.

Outra explicação recorrente está relacionada à busca pela perfeição. A necessidade de corresponder a figuras parentais idealizadas faz com que, na vida adulta, o indivíduo espere sempre pelo cenário perfeito: o dia certo, o ambiente ideal, as ideias completamente organizadas. Procrastinar, nesse caso, é como dizer que ainda não é o momento adequado para agir. O problema é que esse ideal nunca se concretiza, levando a entregas feitas sob pressão e à sensação constante de insuficiência.

A procrastinação, portanto, não se limita ao adiamento de tarefas, mas expressa uma dificuldade em lidar com limites, frustrações e com a própria imperfeição. Ela se repete no trabalho, nos estudos e em decisões importantes da vida cotidiana.

Na clínica psicanalítica, o foco não está em técnicas de produtividade, mas na escuta. Ao falar sobre sua relação com o tempo, a cobrança e o medo de errar, o sujeito pode compreender o que sustenta esse adiamento. A análise permite, assim, transformar a relação com o fazer, possibilitando agir no presente sem a necessidade de culpa ou auto-punição.

Gino Cammarota

Psicanalista clínico e professor de psicanálise

Atendimentos presenciais em Itupeva e online

Agendamentos e informações: +55 11 99994-4196