Adoecimento emocional como “novo normal” no trabalho

 Vamos começar fazendo um questionamento. Sentir ansiedade é natural? Porque o que tem parecido é que a ansiedade deixou de ser apenas um sentimento pontual e passou a ocupar um lugar central no dia a dia. As pessoas estão mais ansiosas, mais preocupadas e as consequências têm afetado a saúde mental, em especial dos jovens em plena produção, principalmente, intelectual.



Nos últimos anos, a saúde mental deixou de ser um tema periférico nas empresas e emergiu como uma crise que impacta diretamente a vida dos trabalhadores e a dinâmica do mercado de trabalho brasileiro. Os dados oficiais mostram que transtornos como ansiedade, depressão e esgotamento psíquico já são uma das principais causas de afastamento no país — e os números não param de crescer.

Eles ficam mais assustadores quando os exemplos estão próximos de nós. Do ano passado para cá tomei ciência que três colegas, das mais diferentes idades e profissões, precisaram se afastar para cuidar de sua saúde mental.

Não sei se entraram nas estatísticas, mas só em 2024, o Brasil registrou mais de 472 mil afastamentos do trabalho por motivos relacionados à saúde mental, número que representa um aumento de cerca de 68% em relação a 2023 e o maior da série histórica disponível.

Em recente matéria do G1 intitulada ‘Brasil tem mais de 546 mil afastamentos por saúde mental em 2025 e bate recorde pela segunda vez em 10 anos’ revela que em 2025 o numero de licenças voltou a crescer e escancara um cenário de adoecimento cada vez mais amplo entre os trabalhadores do país.

Foram mais de meio milhão de licenças concedidas por transtornos mentais, estabelecendo um novo recorde e ampliando o peso da saúde mental no total de afastamentos. Ao todo o país teve 4 milhões de licenças do trabalho.

Ansiedades, depressão, transtornos, enfim, os mais diferentes diagnósticos que para alguns podem parecer ‘frescura’, mas deve ser tratado com cuidado e respeito. A saúde mental das pessoas, em especial e inclusive dos jovens, tem sido um gargalo para os especialistas.

Mas por que nossos jovens têm adoecido mais rápido? Não aguentando o ‘tranco’ como dizem os mais antigos? Embora os dados oficiais não detalhem por faixa etária a distribuição dos afastamentos, pesquisas internacionais e levantamentos de consultorias apontam que trabalhadores mais jovens, especialmente da chamada Geração Z, têm relatado maiores níveis de estresse, burnout e ansiedade em função de condições de trabalho instáveis, pressões por desempenho e precariedade laboral.

Estudos em países como o Reino Unido mostram que até 91% dos trabalhadores entre 18 e 24 anos relataram sintomas de burnout, com quase metade deles necessitando de algum afastamento ou tempo fora do trabalho por causa da saúde mental.

Aliás, o crescimento não é apenas um reflexo de diagnósticos mais frequentes, mas também de fatores estruturais no ambiente de trabalho, como pressão por desempenho, jornadas longas e falta de apoio institucional.

Não cabe aqui um diagnóstico ou motivos sobre nossa capacidade de nos adaptarmos às mudanças ou pressões, mas sim um alerta para que possamos entender porque e para que estamos nesta euforia, nesta correria. O que queremos, de fato, como resultado para nossa vida profissional e pessoal?

Os afastamentos são apenas a ponta de um iceberg. Olhar o colega ao lado e, vez e outra, perguntar ‘tá tudo bem ai’ pode ser o primeiro remédio. Nada pode ser mais urgente que nossa saúde e a saúde da futura geração. Olhemos mais para além do computador!