O Brasil proibiu as bets. Quanto o futebol brasileiro depende delas?

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Por Kauê Carvalho — Consultor Financeiro

O governo federal publicou nesta semana uma medida provisória que proíbe as apostas de quota fixa no Brasil, as chamadas bets.

E uma das primeiras discussões que surgiram foi sobre algo aparentemente distante do apostador:

o que acontecerá com o futebol brasileiro?

A preocupação tem motivo.

Nos últimos anos, as casas de apostas ocuparam um espaço enorme nas camisas, placas, transmissões e contratos dos principais clubes do país.

Atualmente, 14 dos 20 clubes da Série A têm empresas do setor como patrocinadoras principais.

Levantamentos realizados a partir dos balanços dos clubes situam os aportes das bets em aproximadamente 7% a 8% das receitas totais dos times da Série A em 2025, algo ao redor de R$ 1 bilhão.

Parece pouco?

Não necessariamente.

Primeiro porque a exposição não é igual entre os clubes.

Segundo porque, quando olhamos especificamente para as receitas comerciais, a participação das empresas de apostas é muito maior, próxima de um terço.

Portanto, a perda dessa fonte de recursos pode representar um choque relevante para parte do futebol brasileiro.

Mas ainda é cedo para determinar exatamente qual será o impacto sobre cada clube.

E é justamente aí que começa a discussão que mais me interessa.

Não sobre apostas. Sobre gestão.

Se uma fonte relevante de receita desaparece repentinamente, o que acontece com a estrutura construída enquanto aquele dinheiro estava entrando?

A pergunta vale para um clube de futebol. Mas também vale para uma empresa. E para a nossa própria vida financeira.

Ter uma grande fonte de receita não é, por si só, um problema.

Um clube conseguir um patrocinador disposto a pagar mais é positivo.

Uma empresa conquistar um cliente responsável por uma parcela relevante do faturamento também pode ser.

Um profissional aumentar significativamente sua renda por meio de bônus ou comissões, da mesma maneira.

Concentração é um risco. Não necessariamente um erro.

O problema começa quando uma receita cuja continuidade não controlamos passa a sustentar compromissos que continuarão existindo mesmo se ela desaparecer.

Imagine uma empresa que conquista um cliente enorme.

O faturamento cresce.

Ela contrata mais pessoas, aumenta a estrutura, assume financiamentos e incorpora novos custos recorrentes.

Enquanto o contrato permanece, tudo parece funcionar perfeitamente. Até o cliente sair.

O problema não foi conquistar aquele cliente.

Talvez nem tenha sido permitir que ele se tornasse relevante para o faturamento.

O problema aparece se a empresa construiu uma estrutura incapaz de se adaptar à possibilidade de perdê-lo.

Concentração costuma parecer eficiência enquanto o dinheiro continua entrando. Só parece risco quando ele deixa de entrar.

Na vida pessoal, acontece algo semelhante.

Uma renda variável aumenta durante alguns meses e começa a financiar despesas permanentes.

O bônus vira prestação. A comissão vira custo fixo. O extraordinário vira padrão de vida.

Quando a renda volta ao normal, as despesas não voltam junto.

É por isso que gestão financeira não deveria responder apenas:

“O que faremos com o dinheiro enquanto ele entra?”

Ela também precisa responder:

“O que faremos se parte dele deixar de entrar?”

Essa segunda pergunta muda muita coisa.

Obriga uma empresa a pensar em concentração de clientes.

Uma família a pensar em reserva. Um profissional a observar a dependência de uma única fonte de renda.

E uma organização a testar se seus custos conseguem se adaptar quando o cenário muda.

Isso não significa administrar esperando uma tragédia. Significa reconhecer algo simples:

nem toda receita que existe hoje estará necessariamente disponível amanhã.

Um patrocinador pode sair. Um contrato pode terminar. Um cliente pode trocar de fornecedor. Uma tecnologia pode transformar um mercado. Uma regra pode mudar.

Nenhuma organização controla completamente essas variáveis.

O que ela pode controlar é o quanto está preparada para reagir a elas. Por isso, planejamento de cenário não é pessimismo.

Planejar não significa acreditar que o pior acontecerá. Significa não precisar começar a pensar somente depois que ele acontece.

E talvez essa seja a discussão mais interessante que a proibição das bets trouxe para o futebol.

Não é necessário afirmar que os clubes foram mal administrados.

Os contratos existiam dentro do ambiente vigente, os clubes possuem estruturas financeiras muito diferentes e a mudança regulatória pode produzir impactos mesmo em organizações bem geridas.

Também seria precipitado afirmar que o futebol brasileiro entrará em colapso.

Os dados disponíveis não permitem essa conclusão.

O que a mudança permite fazer é uma pergunta que qualquer gestor deveria conhecer antes de precisar respondê-la na prática:

se uma fonte relevante de receita desaparecer amanhã, quanto da sua estrutura continuará de pé?

Essa pergunta deveria existir muito antes da crise, porque segurança financeira não é apenas ter receita.

É possuir capacidade de adaptação. Talvez você não administre um clube de futebol.

Mas pode ter uma empresa excessivamente exposta a poucos clientes.

Pode depender quase integralmente de uma única atividade profissional.

Pode estar transformando uma renda variável em despesas fixas.

Ou simplesmente acreditar que, porque o dinheiro continua entrando hoje, continuará entrando amanhã.

O futebol brasileiro agora terá de se adaptar a uma mudança importante em uma de suas fontes de receita comercial.

Ainda veremos como cada clube responderá e qual será a dimensão real desse impacto, mas existe uma pergunta que não precisa esperar:

quanto da sua estrutura depende de uma receita cuja continuidade você não controla?

Porque boa gestão não é apenas saber o que fazer com o dinheiro enquanto ele entra.

É construir uma estrutura capaz de continuar de pé quando o cenário muda.

Kauê Carvalho

Consultor Financeiro | Palestrante | Coautor Best-Seller

@kauecarvalhoconsultor