Apologia à Zona de Conforto

 A conhecida máxima de que é preciso sair da zona de conforto para crescer tem orientado o discurso de muitos profissionais que atuam como coaches, especialistas em transição de carreira e psicólogos, áreas que de fato auxiliam pessoas em momentos decisivos da vida profissional. Mas fica a reflexão: será mesmo necessário romper bruscamente com tudo o que é conhecido para alcançar desenvolvimento?

A zona de conforto pode ser definida como aquele conjunto de atividades, temas ou funções profissionais que já dominamos e que, por isso, exigem pouco esforço para serem executadas. Com o tempo, no entanto, essa facilidade tende a gerar menor satisfação. Do ponto de vista neurológico, o cérebro passa a operar quase no automático, sem a necessidade de criar novas conexões neurais. Como consequência, o aprendizado diminui, assim como a liberação de dopamina, hormônio ligado à recompensa. Surgem, então, o tédio, o desânimo e, no ambiente profissional, a conhecida síndrome do domingo à noite.

Diante disso, surge um convite à reflexão: e se, em vez de simplesmente romper com a zona de conforto, a proposta fosse expandi-la?

O contato com o novo costuma acionar no cérebro o chamado distress, o estresse negativo, que tem no medo sua principal resposta emocional. Esse medo é construído a partir de experiências anteriores, muitas vezes levando o cérebro a imaginar o pior cenário possível como única consequência. O corpo reage: visão turva, músculos tensos, coração acelerado, boca seca e tremores, sinais que frequentemente levam ao abandono da nova tentativa.

Uma alternativa mais eficiente pode estar na preparação gradual. Quem deseja mudar de carreira pode, antes, estudar o novo mercado. Quem pensa em um esporte radical pode começar por uma prática semelhante, porém menos arriscada. Quem planeja mudar de país pode buscar conhecer a cultura local previamente. A proposta é avançar em pequenos passos, ampliando a zona de conforto, e não destruindo-a. Mesmo que o objetivo final não seja alcançado de imediato, o conhecimento adquirido permanece, confirmando a ideia de que uma mente aberta a novas experiências dificilmente volta ao tamanho original.

Renan de Almeida Campos é Engenheiro de Produção e Cientista da Criatividade, com especializações em Neurociência do Desenvolvimento, Gestão da Mudança e Design Centrado no Usuário. Atua com consultorias e palestras voltadas à inovação, criatividade e resultados, com mais de 18 anos de experiência no ambiente corporativo.