Essa é uma queixa muito frequente na clínica e costuma gerar sofrimento, angústia e um desconforto persistente nas relações. Por mais simples que pareça, dizer “não” ou agir de forma contrária à vontade do outro pode ser vivido como algo ameaçador. Segundo o psicanalista clínico e professor de psicanálise Gino Cammarota, essa dificuldade não está ligada apenas à educação ou à personalidade, mas a experiências emocionais muito precoces.
Na infância, perder o amor dos pais não é algo simbólico. Para a criança, isso representa uma ameaça real à sobrevivência: não ser alimentada, não receber cuidados básicos e não ter afeto. Trata-se de uma morte literal do ponto de vista psíquico infantil. Independentemente da forma como os pais se comportam, o bebê percebe o mundo como hostil e leva tempo para compreender suas regras. Nesse período, o medo do abandono e o sentimento de desamparo organizam grande parte das experiências emocionais.
De acordo com Gino Cammarota, quando essas vivências se repetem ou são intensas, podem se fixar como marcas inconscientes. Esses registros passam a funcionar como um roteiro silencioso que orienta o comportamento na vida adulta. Assim, ao nos relacionarmos — seja no trabalho, na família ou na vida afetiva — projetamos essas experiências iniciais. Internamente, é como se a criança ainda presente dissesse que, se não agradarmos o outro, algo muito grave vai acontecer.
Na vida adulta, essa ameaça já não se apresenta como morte literal, mas como uma sensação de ruptura, exclusão ou desintegração. Para evitar esse sofrimento, muitas pessoas sentem que precisam garantir o lugar de “bons meninos” ou “boas meninas”, papéis construídos a partir de exigências afetivas antigas e, muitas vezes, pouco conscientes.
Gino Cammarota recorre aos conceitos de Jacques Lacan para aprofundar essa compreensão. Para Lacan, o amor que buscamos no outro é algo que o próprio outro não possui para oferecer, pois também está marcado pela falta e pela busca de reconhecimento. Insistir em agradar, portanto, é tentar obter do outro algo que ele não tem.
Nesse sentido, por mais desconfortável que possa parecer, o caminho não está em satisfazer constantemente as expectativas externas, mas em construir, internamente, uma relação mais sólida consigo mesmo. Fortalecer a autoestima e o amor-próprio permite que o “não” deixe de ser vivido como ameaça e passe a ser um gesto legítimo de preservação psíquica. Na clínica psicanalítica, esse movimento acontece a partir da fala e da escuta, possibilitando que o sujeito compreenda suas repetições e transforme sua forma de se relacionar com o outro e consigo.
Gino Cammarota
Psicanalista clínico e professor de psicanálise
Atendimentos presenciais em Itupeva e online
Agendamentos e informações: +55 11 99994-4196
.gif)
)%20(25).png)
