por William Paixão
Todos os anos, quando o Carnaval se aproxima, eu já sei o que vai acontecer.
Antes mesmo do primeiro surdo tocar, começam a surgir os discursos prontos dos autoproclamados “defensores da moral e dos bons costumes”, repetindo as mesmas críticas de sempre.
Em 2026 completo 25 anos de envolvimento direto com o Carnaval. Um quarto de século vivendo essa festa por dentro, trabalhando, produzindo, organizando, julgando, aprendendo e, principalmente, me apaixonando cada vez mais por tudo o que ela representa.
E é justamente por conhecer o Carnaval por dentro que me sinto no dever de colocar algumas verdades na avenida.
Carnaval não nasceu no Brasil — mas aqui ele virou identidade
Uma das críticas mais repetidas é a ideia de que o Carnaval seria uma “invenção brasileira”.
Não é.
As origens dessa celebração remontam a mais de 6 mil anos, passando por festas da Mesopotâmia, do Egito, da Grécia e da Roma Antiga. As Saturnálias romanas já traziam elementos que hoje reconhecemos claramente: música, dança, máscaras, alegria coletiva e a ocupação das ruas.
O que o Brasil fez foi algo muito maior: transformou essa tradição em identidade cultural.
Quando o Carnaval chegou aqui, veio como festa da elite. Bailes fechados, salões aristocráticos, influência europeia. Mas o povo brasileiro fez o que sabe fazer de melhor: reinventou.
Misturamos ritmos africanos, criatividade popular, cultura indígena, alegria e resistência. O resultado? A maior manifestação cultural coletiva do planeta.
Minha história com o Carnaval não é teórica. É vivida.
Já tive a honra de presidir a Liga Jundiaiense das Escolas de Samba.
Em 2014, tive a alegria de idealizar o projeto Jundiaí na Marquês de Sapucaí, que levou cerca de 250 jundiaienses para desfilar na Acadêmicos de Santa Cruz, em um enredo totalmente dedicado à nossa cidade.
Em 2017, fui o articulador da homenagem ao artista plástico Inos Corradin, realizada pela X-9 Paulistana — que, naquele ano, se tornou campeã do Carnaval.
Há mais de uma década, atuo como julgador profissional dos desfiles das escolas de samba nas principais capitais do país.
Ou seja: eu não assisto o Carnaval da arquibancada da opinião.
Eu vivo o Carnaval na avenida da realidade e por essa razão resolvi rebater algumas narrativas equivocadas.
Outra narrativa que sempre aparece é a de que o Brasil “paga o ano inteiro” pelo Carnaval.
Quem trabalha com a festa sabe que isso não se sustenta.
O Carnaval movimenta bilhões, gera empregos, ativa o turismo, fortalece a economia criativa e sustenta milhares de famílias. Em muitas cidades, ele é a principal engrenagem econômica do ano.
O Carnaval não é despesa.
É investimento cultural, social e econômico e talvez por isso o que mais me entristeça nos últimos anos seja ver crescer um grupo de brasileiros que passou a resistir à própria identidade cultural e aderir ao negacionismo de conveniência.
É duro ver o Carnaval — uma das maiores expressões da nossa história — virar alvo de discursos de ódio, muitas vezes inspirados em referências culturais estrangeiras que nada têm a ver com a nossa formação.
O Brasil sempre foi plural, diverso e criativo.
O Carnaval sempre foi símbolo dessa convivência.
Quando atacamos o Carnaval, atacamos também uma parte profunda do que somos enquanto pátria, enquanto nação.
Carnaval não é problema — é patrimônio
Não, o Carnaval não é o maior causador de acidentes.
Não, ele não é responsável isolado por problemas sociais.
Não, ele não é uma festa de excessos sem sentido.
O Carnaval é plural:
é bloco de rua, desfile, matinê infantil, encontro familiar, tradição comunitária, espetáculo artístico, turismo, música, dança e pertencimento.
É cultura viva.
Eu sigo acreditando que o dia em que a sociedade brasileira se reconhecer como única, autêntica e empoderada de si mesma, perceberemos que temos nas mãos a maior potência cultural do mundo.
E isso não será apesar do Carnaval, será também graças ao Carnaval.
E, como já nos lembra a canção imortal:
“Quem não gosta de samba, bom sujeito não é.”
Mas, se não gosta, tudo bem — basta não frequentar. Aproveite pra descansar, só não vale criticar a alegria alheia. Faz até mal!
Por tudo isso, deixo aqui meu convite e minha celebração:
Viva o Carnaval. Que comecem as comemorações.
William Paixão é Gestor Executivo de Cultura e Turismo de Várzea Paulista e Vice Interlocutor da Região Turística Negócios & Cultura que compreende 11 cidades do estado de São Paulo.
Já atuou na Unidade de Cultura de Jundiaí e assina projetos como “Jundiaí na Marquês de Sapucaí”, Passaporte Cultural Guardiões do Patrimônio (premiado pelo IPHAN) e o Registro Imaterial da Coxinha de Queijo de Jundiaí, com foco em identidade, cultura e desenvolvimento territorial
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🎭 Carnaval: cultura, identidade e verdade.
Depois de 25 anos vivendo o Carnaval por dentro, escrevi um artigo especial colocando fatos na avenida e questionando as críticas que surgem todos os anos contra a maior festa popular do Brasil.
Origem histórica, impacto econômico, polarização política e, principalmente, a importância do Carnaval como fio condutor da nossa identidade cultural 🇧🇷
Convido você para essa leitura no Jornal IA Notícias.
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